
Ideia central
Os coríntios criam que Jesus vivia, mas negavam a ressurreição do corpo. Paulo mostra que o evangelho inteiro depende da ressurreição de Cristo, que ela é o primeiro fruto da nossa e que, por isso, a morte já perdeu o aguilhão e o trabalho no Senhor não é vão.
É possível crer que Jesus ressuscitou e, ainda assim, negar a ressurreição?
Em Corinto, muitos faziam exatamente isso. Não negavam que Cristo estivesse vivo, nem o céu, nem a vida depois da morte. Diziam apenas que a alma vive e o corpo, não. Talvez influenciados pela filosofia grega, que via o corpo como prisão da alma, achavam que ressuscitar o corpo seria um retrocesso, não uma esperança.
Muitos cristãos hoje pensam parecido, imaginando a eternidade como almas flutuando nas nuvens. Paulo responde com o capítulo mais longo da carta.
O evangelho que Paulo recebeu
3 Antes de tudo, entreguei a vocês o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, 4 e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. 5 E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. 6 Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria ainda vive; porém alguns já dormem. 7 Depois, foi visto por Tiago e, mais tarde, por todos os apóstolos. 8 Por último, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo.
1 Coríntios 15.3-8 · Nova Almeida Atualizada
Paulo não traz novidade. Lembra o evangelho que os coríntios receberam, no qual continuam firmes e pelo qual são salvos, “se retiverem a palavra assim tal como a preguei” (v. 2). A fé verdadeira persevera; quem abandona a mensagem mostra que tinha “crido em vão”.
E a mensagem não foi inventada por ele: “entreguei a vocês o que também recebi”. Muitos estudiosos veem nos versículos 3 a 5 um dos credos cristãos mais antigos, recitado pela igreja poucos anos depois da cruz. Ele tem quatro linhas. Cristo morreu pelos nossos pecados, no nosso lugar. Foi sepultado, porque a morte foi real. Ressuscitou ao terceiro dia. E apareceu.
Paulo apresenta testemunhas: as Escrituras, que anunciaram o Servo que morreria pelos pecados de outros (Is 53); Pedro, os Doze, Tiago; mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria ainda viva, ou seja, gente que qualquer um podia procurar e interrogar; e o próprio Paulo, que perseguia a igreja até encontrar o Ressuscitado. E conclui: não importa quem pregou, se ele ou os outros apóstolos; importa o que se pregou (v. 11).
Se Cristo não ressuscitou
Então ele vai ao ponto: “E, se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e é vã a fé que vocês têm” (vv. 13-14).
Paulo leva o argumento dos coríntios até o fim, e tudo desaba. A pregação fica vazia. A fé fica vazia. Os apóstolos passam a ser falsas testemunhas de Deus. Os que creem “ainda permanecem nos seus pecados” (v. 17). E os que morreram em Cristo estão perdidos (v. 18).
“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos as pessoas mais infelizes deste mundo” (v. 19). O cristianismo não é uma filosofia de vida que continua de pé sem o milagre. Ele se sustenta, ou cai, com um acontecimento na história: um túmulo vazio num domingo de manhã.
As primícias da colheita
“Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (v. 20).
Primícias eram os primeiros feixes da colheita, levados a Deus como garantia de que o resto viria. A ressurreição de Jesus não é um caso isolado. É o primeiro feixe de uma colheita que ainda vai ser recolhida. “Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo” (v. 22).
E há uma ordem: primeiro Cristo; depois, na sua vinda, os que são dele; então o fim, quando Cristo, que reina agora, terá posto todos os inimigos debaixo dos pés (Sl 110.1). “O último inimigo a ser destruído é a morte” (v. 26). No fim, Deus será “tudo em todos” (v. 28).
Uma fé que custa
Paulo ainda pergunta: por que arriscaríamos a vida todos os dias, se tudo terminasse no túmulo? Ele tinha lutado “em Éfeso contra feras” (v. 32). Sem ressurreição, o mais lógico seria o lema dos que desistem de tudo: “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”.
O versículo 29, sobre os que “se batizam por causa dos mortos”, é dos mais difíceis da Bíblia e tem muitas interpretações. O que importa é o argumento: nem essa prática, nem o sofrimento dos apóstolos, fariam sentido se os mortos não ressuscitassem.
E o aviso que vem em seguida vale para hoje: “As más companhias corrompem os bons costumes” (v. 33). Ideias erradas sobre Deus, cedo ou tarde, produzem vidas tortas. Doutrina e conduta andam juntas.
Com que corpo?
“Como é que os mortos ressuscitam? E com que corpo virão?” (v. 35). A resposta de Paulo vem do campo: “O que você semeia não nasce, se primeiro não morrer” (v. 36). Ninguém planta uma árvore, planta uma semente. O que sai da terra tem continuidade com o que foi semeado, mas é muito mais glorioso.
42 Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. 43 Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. 44 Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.
1 Coríntios 15.42-44 · Nova Almeida Atualizada
“Corpo espiritual” não quer dizer corpo feito de espírito, sem matéria. Quer dizer um corpo inteiramente governado e vivificado pelo Espírito Santo. Jesus ressuscitado podia ser tocado e comeu diante dos discípulos (Lc 24.39-43). Era o mesmo Jesus, com as marcas dos cravos, e, ao mesmo tempo, um corpo glorioso, que não morre mais.
Paulo fecha a comparação com Adão: “O primeiro homem, Adão, se tornou um ser vivente. Mas o último Adão é espírito vivificante” (v. 45). Em Adão, trazemos a imagem do que é terreno; em Cristo, traremos a imagem do que é celestial (v. 49).
A morte perdeu o aguilhão
Nem todos vão morrer. Os que estiverem vivos quando Cristo voltar serão transformados “num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta” (v. 52). E então:
54 […] se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte pela vitória.” 55 “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” 56 O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. 57 Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.
1 Coríntios 15.54-57 · Nova Almeida Atualizada
O que faz a morte doer é o pecado, e o que dá força ao pecado é a lei, que nos condena. Na cruz, Cristo cumpriu a lei e levou sobre si a condenação. O aguilhão ficou nele. Para quem está em Cristo, a morte ainda chega, mas já não tem com que ferir de verdade.
Portanto
Paulo não termina com uma teoria sobre o futuro. Termina com uma ordem para hoje: “Portanto, meus amados irmãos, sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é vão” (v. 58).
- Guarde o evangelho sem cortes. Os coríntios não abandonaram Cristo; tentaram adaptar o evangelho ao gosto da cultura. Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou, e o nosso corpo será redimido. Tirar qualquer parte disso esvazia a esperança.
- Sofra com esperança de verdade. A ressurreição não nega a dor, o luto e o cansaço, mas garante que eles não têm a última palavra. Quando um cristão é sepultado, o que se faz é semear.
- Sirva sem desanimar. Nada do que é feito no Senhor se perde. Nenhuma oração, nenhum serviço escondido, nenhuma lágrima.
No quadro de Van Gogh, o semeador espalha as sementes ao pôr do sol. Quem olha de longe pode pensar que ele está jogando algo fora. Não está. Está semeando. É assim que a igreja enterra os seus mortos.
Este artigo nasceu de um sermão expositivo sobre 1 Coríntios 15. Imagem da capa: Vincent van Gogh, O semeador (1888), Museu Kröller-Müller, Otterlo, Países Baixos (domínio público).
Citações bíblicas deste texto: Nova Almeida Atualizada (NAA) © Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. Usada com permissão.