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Isaac MelloBíblia, teologia e vida cristã

Artigo · O Sermão do Rei

Vencer o mal com o bem: o chamado mais difícil de Jesus

Por Isaac Mello · · 9 min de leitura · Bíblia: NAA

O mar da Galileia visto do Monte das Bem-Aventuranças, com um campo de flores amarelas em primeiro plano.

Ideia central

Jesus proíbe a vingança pessoal e manda amar os inimigos e orar por eles, porque é assim que o Pai age. Ninguém cumpre esse padrão sozinho: só Cristo o cumpriu, e é pelo Espírito dele que esse amor começa a viver em nós.

Todo mundo guarda uma lista. Ninguém a escreve no papel, mas ela está lá, organizada com precisão de contador: o colega que espalhou a mentira, o parente que traiu a confiança, a pessoa que transformou a nossa fé em piada no grupo da família. É a lista das contas ainda não acertadas, e ela se escreve sozinha, no instante em que somos feridos.

Ninguém precisa nos ensinar a regra que vem com ela: “você fez isso comigo, eu faço aquilo com você”. Uma criança de três anos já a pratica quando o irmão toma o brinquedo dela. Talvez seja a única lei que a humanidade cumpre sem falhar.

Em Mateus 5.38-48, Jesus mexe exatamente nessa lista.

O texto

38 Vocês ouviram o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente.” 39 Eu, porém, lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça-lhe também a face esquerda. 40 Se alguém quer processar você e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. 41 Se alguém obrigar você a andar uma milha, vá com ele duas. 42 Dê a quem lhe pede e não volte as costas ao que quer lhe pedir emprestado.

43 Vocês ouviram o que foi dito: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo.” 44 Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês, 45 para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus. Porque ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. 46 Porque, se vocês amam aqueles que os amam, que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? 47 E, se saudarem somente os seus irmãos, o que é que estão fazendo de mais? Os gentios também não fazem o mesmo? 48 Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu.

Mateus 5.38-48 · Nova Almeida Atualizada

“Olho por olho” era um freio, não uma licença

A frase que Jesus cita está na Lei de Moisés (Êx 21.24; Lv 24.20; Dt 19.21) e não tem nada de bárbara. No mundo antigo, uma ofensa podia virar uma guerra entre famílias que atravessava gerações. A lei pôs limite nisso: a pena deve ser proporcional ao dano, nem mais nem menos, e quem a aplica é o juiz, não a vítima tomada pela raiva (Dt 19.15-21).

O problema é que os mestres do tempo de Jesus tiraram essa regra do tribunal e a levaram para a vida pessoal. O que era freio contra a vingança virou desculpa para ela. Jesus não está corrigindo Moisés. Está corrigindo quem usava Moisés para fazer o que a própria lei queria impedir.

O que Jesus proíbe, e o que ele não proíbe

“Não resistam ao perverso.” Jesus não pede que finjamos que o mal não é mal: o próprio texto chama o agressor de perverso. O que ele proíbe é acertar as contas com as próprias mãos.

Isso não acaba com a justiça. O mesmo Novo Testamento ensina que a autoridade foi instituída por Deus para castigar quem pratica o mal (Rm 13.4). Você pode, sim, chamar a polícia, denunciar um crime e proteger quem está sendo maltratado. A pergunta de Jesus vai mais fundo: o que está no seu coração enquanto você faz isso? Sede de justiça ou sede de vingança?

Quatro cenas do dia a dia

Jesus não fica no princípio. Ele desenha quatro cenas, tiradas da vida de quem o ouvia.

O tapa. Um tapa na face direita, dado por alguém destro, só podia ser com as costas da mão. Era um gesto de desprezo, feito mais para humilhar do que para ferir. Jesus fala do insulto público. Hoje ele chega por uma captura de tela, um comentário, uma exposição no grupo. O caminho do mundo é revidar e cancelar. O de Jesus é não devolver o insulto.

A túnica e a capa. A Lei protegia a capa do pobre: ela não podia ficar penhorada durante a noite, porque servia de cobertor (Êx 22.26-27). Era o direito mais garantido que alguém tinha. Jesus diz: se querem tomar a sua túnica num processo, deixe que levem também a capa. É abrir o punho que se fecha sobre os próprios direitos.

A segunda milha. Um soldado romano podia obrigar qualquer morador da terra a carregar a sua bagagem por uma milha, quase um quilômetro e meio. Era um símbolo odiado da ocupação. O verbo que Mateus usa aqui, angareúo, é o mesmo de Mateus 27.32, quando Simão de Cirene foi obrigado a carregar a cruz de Jesus. Em vez de cumprir a milha contando os passos, com raiva, o discípulo caminha a segunda por vontade própria.

Dar e emprestar. Não é ingenuidade. A Bíblia não manda sustentar a preguiça (2Ts 3.10) nem financiar um vício. Mas a mão do discípulo é aberta, não fechada sobre o que é “meu”.

Se transformarmos essas cenas numa nova lista de regras, voltamos ao erro dos fariseus. Elas retratam uma pessoa só: alguém que deixou de defender a si mesmo a qualquer custo, porque a sua honra está guardada em outro lugar. Isso não é fraqueza. É preciso muito mais força para não revidar do que para revidar.

Amar e orar pelo inimigo

“Ame o seu próximo” está em Levítico 19.18. “Odeie o seu inimigo” não está em lugar nenhum do Antigo Testamento. Foi um acréscimo da tradição, e contra a própria Lei, que mandava devolver ao inimigo o boi que se tinha perdido (Êx 23.4-5) e dar pão ao inimigo com fome (Pv 25.21).

O amor que Jesus manda não é um sentimento quente. É a decisão de querer e de fazer o bem ao outro. Ele não pede que você sinta carinho por quem o persegue. Pede que ore por ele.

E aqui vai um conselho bem prático: não espere sentir amor para começar a orar. A ordem é a inversa. Comece a orar pela pessoa, pelo nome, e o amor vem depois. É difícil orar de verdade por alguém, semana após semana, e continuar o mesmo por dentro.

Corrie ten Boom aprendeu isso do jeito mais duro. Ela e a irmã, Betsie, foram mandadas para o campo de concentração de Ravensbrück por esconderem judeus na casa da família, na Holanda. Betsie morreu lá. Em 1947, depois de uma reunião em Munique em que Corrie tinha falado do perdão de Deus, um homem veio cumprimentá-la. Ela o reconheceu: era um dos guardas do campo. Ele contou que tinha se convertido e pediu o perdão dela. Corrie travou; por dentro, só havia frieza. Orou em silêncio, mais ou menos assim: “Jesus, me ajuda. Levantar a mão eu consigo. O sentimento, dá-me tu”. Estendeu a mão e, segundo ela mesma contou, o calor do perdão veio depois do gesto, não antes.

O maior exemplo, porém, é Jesus. Pregado na cruz, ele orava pelos que o matavam: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34).

Filhos que se parecem com o Pai

Por que amar o inimigo? “Para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês” (v. 45). Ninguém se torna filho de Deus por amar o inimigo; somos filhos pela graça, mediante a fé (Ef 2.8-9). Mas o filho se parece com o Pai, e o Pai faz o sol nascer sobre maus e bons e manda chuva sobre justos e injustos. Ele não tira o sol da manhã de quem o blasfema.

Os publicanos e os gentios, as duas categorias mais desprezadas por quem ouvia Jesus, também amam quem os ama e cumprimentam os seus. Isso não exige graça nenhuma. É o mínimo da humanidade. Se a nossa vida cristã para aí, não mostramos nada do Reino.

“Sejam perfeitos”

O versículo 48 fecha a seção: “sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu”. A palavra grega, téleios, fala de algo inteiro, completo. Não é impecabilidade: o mesmo Sermão nos ensina a pedir todos os dias “perdoa-nos as nossas dívidas” (6.12). É um amor sem fronteiras, que não deixa ninguém de fora, nem o inimigo.

E aqui o texto vira espelho. Ninguém lê esse versículo com honestidade e sai satisfeito consigo mesmo. Guardamos mágoa. Torcemos, em silêncio, para que quem nos feriu pague. O padrão de Jesus não é um degrau que se sobe com mais esforço. É alto demais para qualquer um de nós.

Parar aqui seria moralismo, o famoso “esforce-se mais”, e isso nunca mudou um coração. O texto nos leva a outro lugar.

Um homem cumpriu este texto

Houve alguém que viveu cada cena deste sermão. Ele foi esbofeteado e cuspido no rosto (Mt 26.67) e não devolveu o insulto. Teve a túnica tirada, e os soldados tiraram sorte sobre ela ao pé da cruz (Jo 19.23-24). Quando já não podia carregar o madeiro, Simão de Cirene foi obrigado, com o mesmo verbo da segunda milha, a levá-lo por ele (Mt 27.32). E, pregado na cruz, orou pelos que o matavam.

A cruz é o versículo 44 cumprido pelo próprio Deus: “se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida!” (Rm 5.10). Éramos inimigos, e Deus fez o bem a quem lhe fazia mal.

Cristo não só cumpriu esse padrão no nosso lugar. Ele também nos dá o poder de começar a vivê-lo, porque “o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5.5). Ninguém fica sozinho diante de uma ordem impossível.

Se você olha para dentro e encontra só ressentimento e incapacidade de perdoar, talvez esse seja o diagnóstico mais importante da sua vida. A resposta pode não ser “tente mais”. Pode ser que você precise nascer de novo (Jo 3.7) e pedir a Cristo que faça em você o que você nunca conseguiria fazer sozinho.

Na prática

  • Nas redes: quando o insulto vier, e ele vem, principalmente por causa da fé, escolha não expor nem revidar.
  • Em casa: muita briga é disputa pela última palavra. Abra mão desse direito, como quem deixa a capa.
  • Na igreja: mágoas antigas entre irmãos falam mais alto ao mundo do que qualquer sermão.
  • Diante da justiça: você pode buscar reparação e denunciar o crime. O que Jesus proíbe é o ódio e a vingança no coração.

E uma tarefa para os próximos sete dias: pegue o nome que veio à sua mente enquanto lia este texto e ore por essa pessoa todos os dias. Não espere sentir alguma coisa antes.

A vingança está em mãos melhores

Dá para soltar a vingança porque ela está em mãos melhores do que as nossas: “Meus amados, não façam justiça com as próprias mãos, mas deem lugar à ira de Deus, pois está escrito: ‘A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor’” (Rm 12.19). Desistir da vingança é um ato de fé. É crer que Deus é mais justo do que nós jamais seríamos.

Paulo resume o caminho numa frase: “Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Rm 12.21).


Este artigo nasceu de um sermão pregado na Assembleia de Deus de Porto Alegre, congregação Jardim Botânico, em 27 de setembro de 2026, na série O Sermão do Rei. Foto da capa: o mar da Galileia visto do Monte das Bem-Aventuranças (Wikimedia Commons, domínio público).

Citações bíblicas deste texto: Nova Almeida Atualizada (NAA) © Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. Usada com permissão.

Perguntas

Perguntas sobre o texto

O que significa “oferecer a outra face” em Mateus 5.39?

O tapa na face direita, dado com as costas da mão, era um insulto público. Jesus fala de humilhações e ofensas pessoais: o discípulo não devolve o insulto nem acerta as contas com as próprias mãos.

Mateus 5.38-48 proíbe o cristão de buscar a justiça ou chamar a polícia?

Não. O Novo Testamento ensina que a autoridade foi instituída por Deus para castigar quem pratica o mal (Romanos 13.4). Jesus proíbe a vingança pessoal e o ódio no coração, não a reparação legal nem a proteção de quem está sendo maltratado.

O que significa “sejam perfeitos” em Mateus 5.48?

A palavra grega téleios fala de algo inteiro, completo, e não de impecabilidade. É um amor que não deixa ninguém de fora, nem os inimigos, como o amor do Pai, que manda chuva sobre justos e injustos.

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