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Isaac MelloBíblia, teologia e vida cristã

Estudo bíblico

A soberania de Deus na salvação: um estudo de Romanos 9

Por Isaac Mello · · 27 min de leitura · Bíblia: NAA

Gravura de 1881: um oleiro modela um vaso na roda, diante de uma casa de pedra, cercado de jarros e vasilhas de barro, em Rasheiyet el-Fukhar.

Ideia central

Diante da incredulidade de Israel, Paulo mostra que a palavra de Deus não falhou: a salvação sempre dependeu da escolha soberana e graciosa de Deus, e não da linhagem, das obras ou de algo que ele tenha previsto em nós. E Deus não é injusto com ninguém. Quando condena, é justo, porque todos merecemos a condenação; quando salva, é misericordioso. Ninguém recebe injustiça de Deus: ou recebe justiça, ou recebe misericórdia.

Poucos capítulos da Bíblia provocam tanta discussão quanto Romanos 9. E a primeira coisa que chama a atenção é a mudança brusca de tom. Romanos 8 termina no ponto mais alto da carta: nada, nem a morte, nem a vida, nem coisa alguma em toda a criação, poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.38-39). O capítulo seguinte começa com um homem que diz: “sinto grande tristeza e tenho incessante dor no coração”.

O que aconteceu entre um versículo e outro?

Aconteceu Israel. O povo que tinha recebido as promessas, que esperou o Messias por séculos, rejeitou Jesus na sua grande maioria. E isso levantava uma pergunta inevitável: se Deus fez promessas a Israel e Israel ficou de fora, a palavra de Deus falhou? E, se falhou com eles, por que não falharia conosco? Todas as garantias de Romanos 8 dependem da fidelidade de Deus. Por isso os capítulos 9 a 11 não são um desvio do assunto. São a defesa de que Deus cumpre o que promete.

Ao responder sobre Israel, Paulo nos deixa uma das descrições mais claras da Bíblia sobre como Deus age na salvação de pecadores. É um texto difícil e precisa ser lido com humildade. O próprio Paulo, quando chega ao fim do argumento, não termina com uma tese, mas com adoração: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!” (Rm 11.33).

Vamos ler o capítulo em cinco partes:

  1. A dor de Paulo (vv. 1-5)
  2. Quem é o verdadeiro Israel (vv. 6-13)
  3. Há injustiça em Deus? (vv. 14-18)
  4. Quem é você para discutir com Deus? (vv. 19-29)
  5. Onde Israel tropeçou (vv. 30-33)

1. A dor de Paulo (vv. 1-5)

1 Digo a verdade em Cristo, não minto, e a minha consciência confirma isso por meio do Espírito Santo: 2 sinto grande tristeza e tenho incessante dor no coração. 3 Porque eu mesmo desejaria ser amaldiçoado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne. 4 São israelitas. A eles pertence a adoção, assim como a glória, as alianças, a promulgação da Lei, o culto e as promessas. 5 Deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para sempre. Amém!

Romanos 9.1-5 · Nova Almeida Atualizada

Um juramento e uma ferida aberta

Paulo começa com uma declaração solene, quase um juramento: diz a verdade, não mente, e a própria consciência, iluminada pelo Espírito Santo, confirma isso. Por que tanta ênfase? Porque muitos judeus o viam como traidor, o homem que andava pelo mundo ensinando contra o povo, a Lei e o templo (At 21.28). Antes de falar de eleição, Paulo quer que ninguém duvide do amor que sente pelos seus.

E esse amor dói. A tristeza não é passageira; é “incessante”. Paulo chega a dizer que desejaria ser amaldiçoado e separado de Cristo, se isso trouxesse os seus irmãos à fé. É o mesmo coração de Moisés, que, depois do bezerro de ouro, pediu a Deus: “perdoa-lhe o pecado; ou, se não, peço-te que me risques do livro que escreveste” (Êx 32.32). Paulo sabe que isso não é possível; acabou de escrever que nada nos separa do amor de Cristo. Mas o desejo mostra a profundidade do amor. Ele abriria mão de tudo o que descreveu em oito capítulos para ver Israel salvo.

Privilégios que deveriam ter levado a Cristo

O que torna a incredulidade de Israel tão espantosa é a lista do que Deus lhe tinha dado:

  • A adoção. Deus chamou Israel de filho: “Israel é meu filho, meu primogênito” (Êx 4.22).
  • A glória. A presença visível de Deus, que encheu o tabernáculo e depois o templo (Êx 40.34-35; 1Rs 8.10-11).
  • As alianças. Com Abraão (Gn 15), no Sinai (Êx 24) e com Davi (2Sm 7), Deus se comprometeu com esse povo.
  • A promulgação da Lei. Nenhuma outra nação recebeu de Deus uma lei tão justa (Dt 4.8).
  • O culto. O tabernáculo, o sacerdócio, os sacrifícios: um modo de se aproximar de Deus ensinado pelo próprio Deus.
  • As promessas. Sobretudo a promessa do Messias, repetida da casa de Judá (Gn 49.10) até Belém (Mq 5.2).
  • Os patriarcas. Abraão, Isaque, Jacó e a longa linha dos homens de fé.
  • O Cristo. E, coroando tudo, deles veio o próprio Messias, “segundo a carne”. Jesus era judeu.

O versículo 5 termina com uma das afirmações mais diretas do Novo Testamento sobre a divindade de Cristo: ele “é sobre todos, Deus bendito para sempre”. Algumas traduções pontuam a frase de outro modo. O Messias que Israel rejeitou é o próprio Deus que o chamou de filho.

Para nós

A doutrina da eleição não produz gente fria. O apóstolo que mais claramente ensinou a soberania de Deus na salvação é o mesmo que mais chorou pelos perdidos. Se o que cremos sobre a eleição nos deixa indiferentes a quem está sem Cristo, não entendemos Romanos 9. Logo depois deste capítulo, Paulo escreve: “o desejo do meu coração e a minha súplica a Deus em favor deles é para que sejam salvos” (Rm 10.1).

Privilégios não salvam. Crescer na igreja, ter pais crentes, conhecer a Bíblia de cor: tudo isso é bênção, mas não é salvação. Israel tinha muito mais, e tropeçou. A pergunta não é quanto você recebeu, mas o que você fez com Cristo.

E há uma pergunta pessoal: por quem você chora? Paulo tinha nomes e rostos na mente quando escreveu estas linhas.

2. Quem é o verdadeiro Israel (vv. 6-13)

6 E não pensemos que a palavra de Deus falhou. Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas, 7 nem por serem descendentes de Abraão são todos filhos. Pelo contrário: “Por meio de Isaque será chamada a sua descendência.” 8 Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são contados como descendência. 9 Porque a palavra da promessa é esta: “Por esse tempo voltarei, e Sara terá um filho.” 10 E isto não aconteceu somente com ela, mas também com Rebeca, ao conceber de um só, de Isaque, nosso pai. 11 E os gêmeos ainda não eram nascidos, nem tinham feito o bem ou o mal — para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama —, 12 quando foi dito a Rebeca: “O mais velho será servo do mais moço.” 13 Como está escrito: “Amei Jacó, porém desprezei Esaú.”

Romanos 9.6-13 · Nova Almeida Atualizada

A palavra de Deus não falhou

O versículo 6 é a tese de toda esta parte da carta: “não pensemos que a palavra de Deus falhou”. Para mostrar isso, Paulo faz uma distinção decisiva: “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas”. Existe o Israel segundo a carne, os descendentes biológicos de Jacó, e existe, dentro dele, o Israel da promessa. Paulo já tinha dito algo parecido: o verdadeiro judeu é o que o é interiormente (Rm 2.28-29), e Abraão é pai de todos os que creem (Rm 4.11-12, 16).

Deus nunca prometeu salvar cada pessoa nascida em Israel. Prometeu ter um povo. E esse povo sempre foi formado pelo chamado gracioso de Deus, não pela genética. Paulo prova isso com dois exemplos tirados da própria família de Abraão.

Isaque, e não Ismael

Abraão teve dois filhos, Ismael e Isaque. Os dois eram descendentes dele, os dois foram circuncidados. Mas Deus disse: “Por meio de Isaque será chamada a sua descendência” (Gn 21.12). Isaque nasceu de uma promessa, quando Sara já não tinha idade para ter filhos (Gn 18.10). É isso que Paulo quer dizer: “não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa”.

Jacó, e não Esaú

Alguém poderia objetar: Ismael era filho de outra mulher, Agar, a escrava. Então Paulo dá um exemplo em que não sobra nenhuma diferença humana. Jacó e Esaú tinham o mesmo pai e a mesma mãe e foram gerados na mesma gravidez. Eram gêmeos. E, mesmo assim, antes que nascessem, Deus disse a Rebeca: “O mais velho será servo do mais moço” (Gn 25.23), invertendo a ordem natural da primogenitura.

Repare em três detalhes do versículo 11:

  • A escolha veio antes do nascimento. “Os gêmeos ainda não eram nascidos.”
  • A escolha não se baseou no que eles fariam. Eles ainda não “tinham feito o bem ou o mal”, e Paulo faz questão de dizer que foi “não por obras”. Se a escolha dependesse do desempenho de Jacó, presente ou previsto, Paulo não teria por que mencionar que eles ainda não tinham feito nada.
  • A única diferença foi o propósito de Deus. Tudo aconteceu “para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse”.

Pintura de Govert Flinck: Isaque, idoso e quase cego, sentado na cama, toca a cabeça de Jacó, que usa luvas de pele; Rebeca observa por trás.

Govert Flinck, Isaque abençoa Jacó (1638), Rijksmuseum, Amsterdã. Jacó usa as luvas de pele para enganar o pai cego (Gn 27). O escolhido não era melhor que o irmão; a escolha foi graça.

“Amei Jacó, porém desprezei Esaú”

A citação do versículo 13 vem de Malaquias 1.2-3, escrita séculos depois, quando Jacó e Esaú já eram dois povos: Israel e Edom. Na linguagem da Bíblia, “amar” e “desprezar” nesse contexto falam de escolha e preferência, e não de um ódio caprichoso. É a mesma linguagem que Jesus usa em Lucas 14.26, quando diz que ele precisa ser amado acima de pai e mãe. Deus escolheu Jacó para a aliança e não escolheu Esaú.

Há intérpretes que leem Romanos 9 só como uma explicação sobre o papel histórico de povos, e não sobre a salvação de pessoas. O contexto, porém, aponta para a salvação. O problema que Paulo está resolvendo é por que tantos israelitas não foram salvos (9.1-3, 27; 10.1). E o contraste que ele usa, “não por obras, mas por aquele que chama”, é o vocabulário da graça que salva (Rm 4.4-5; 11.5-6). Paulo está falando da escolha livre de Deus na salvação, e Jacó e Esaú são o exemplo mais claro dela.

Uma decisão soberana, e não uma previsão

Muitos irmãos sinceros, em diversas igrejas, inclusive pentecostais, entendem a eleição de outro modo: Deus, que sabe todas as coisas, teria olhado para o futuro, visto quem iria crer e, por isso, escolhido essas pessoas. Seria uma eleição baseada na presciência, isto é, no conhecimento prévio da fé de cada um. É a posição associada a Jacó Armínio, teólogo holandês da virada do século XVI para o XVII, e defendida por cristãos que amam a Escritura.

Romanos 9, porém, aponta em outra direção. A eleição de que Paulo fala é uma decisão soberana de Deus. A causa dela não está em nada que Deus tenha visto de antemão em nós, nem nas obras, nem na fé. Está no próprio Deus. O texto mostra isso de cinco maneiras.

1. O momento da escolha. Deus escolheu quando os gêmeos “ainda não eram nascidos, nem tinham feito o bem ou o mal”. Se a escolha tivesse sido feita com base no que Deus previu que Jacó faria ou creria, esse detalhe não provaria nada: Deus teria escolhido Jacó por causa do Jacó do futuro. Paulo menciona o “antes” justamente para tirar de Jacó qualquer papel na razão da escolha.

2. A causa da escolha. O versículo 11 diz qual foi: “para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama”. O contraste não é entre obras e fé prevista. É entre qualquer coisa que esteja no homem e “aquele que chama”. A causa está em Deus.

3. A objeção que Paulo enfrenta. Se a eleição se baseasse na fé prevista, a pergunta do versículo 14, “Que Deus é injusto?”, nem surgiria. E, se surgisse, a resposta seria simples: “Deus escolheu Jacó porque sabia que ele ia crer”. Paulo não dá essa resposta. Ele responde com a liberdade de Deus: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”. O mesmo vale para a segunda objeção (v. 19): “quem pode resistir à sua vontade?” só faz sentido se a vontade decisiva for a de Deus.

4. A frase que fecha a questão. “Isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (v. 16). Crer é também um ato da vontade humana. Se a eleição dependesse da fé que Deus viu de antemão, dependeria, em última análise, de “quem quer”. Paulo diz o contrário, e conclui: “Deus tem misericórdia de quem quer” (v. 18). A vontade que decide é a de Deus.

5. O oleiro. O oleiro não escolhe o barro pelas qualidades que prevê nele; ele decide o que vai fazer com a massa (v. 21). E os vasos de misericórdia são aqueles que Deus “de antemão preparou para glória” (v. 23).

O que significa “conhecer de antemão”

O texto mais citado em favor da eleição pela presciência é Romanos 8.29: “aqueles que Deus de antemão conheceu ele também predestinou”. Mas repare no que Deus conheceu de antemão. Não a fé de alguém, e sim pessoas: “aqueles que”.

E, na Bíblia, “conhecer” muitas vezes não é ter informações sobre alguém, mas escolher e amar alguém. Em Amós 3.2, o verbo hebraico é “conhecer”, e a própria NAA traduz: “De todas as famílias da terra, somente a vocês eu escolhi”. Deus disse a Jeremias: “Antes de formá-lo no ventre materno, eu já o conhecia” (Jr 1.5). E Jesus vai dizer a alguns, no último dia: “Eu nunca conheci vocês” (Mt 7.23), embora soubesse tudo a respeito deles. Paulo usa o mesmo verbo de Romanos 8.29 em Romanos 11.2: “Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu”.

Conhecer de antemão, aqui, é amar de antemão: Deus pôs o seu amor sobre pessoas antes de elas existirem.

A corrente de ouro: da eleição à glória

Romanos 8.28-30 mostra aonde essa escolha leva. Os puritanos ingleses chamavam estes versículos de “corrente de ouro”:

28 Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. 29 Pois aqueles que Deus de antemão conheceu ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. 30 E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Romanos 8.28-30 · Nova Almeida Atualizada

Repare em quatro coisas.

A corrente começa no propósito de Deus. Os que amam a Deus são “chamados segundo o seu propósito” (v. 28). É a mesma palavra grega, próthesis, que aparece em Romanos 9.11: “o propósito de Deus, quanto à eleição”. Os dois capítulos falam da mesma realidade.

Deus é o sujeito de todos os elos. Ele conheceu de antemão, predestinou, chamou, justificou e glorificou. Em nenhum elo o ser humano é quem age. A salvação é obra de Deus do começo ao fim.

Ninguém se perde no meio do caminho. “Aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou.” São sempre as mesmas pessoas, sem que ninguém fique para trás. E o chamado vem antes da justificação: é o chamado eficaz de Deus que produz a fé pela qual somos justificados. Os capítulos 8 e 9 se encontram aqui. Em 9.24, os vasos de misericórdia são os “a quem também chamou”; em 9.23, Deus os “preparou para glória”; em 8.30, ele os “glorificou”.

A glória já é dada como certa. Paulo escreve “glorificou” no passado, embora a glorificação ainda esteja por vir. Para Deus, o fim da corrente é tão certo quanto o começo. Por isso o capítulo 8 termina dizendo que nada poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus.

O resto do Novo Testamento diz o mesmo

  • “Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu, nele, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele. Em amor nos predestinou […] segundo o propósito de sua vontade” (Ef 1.4-5). Fomos escolhidos para sermos santos, e não porque seríamos santos.
  • “Predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
  • Deus “nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9).
  • “Creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48). Lucas não diz que foram destinados os que creram. Diz que creram os que tinham sido destinados.
  • A própria fé é dádiva: “Porque vocês receberam a graça de sofrer por Cristo, e não somente de crer nele” (Fp 1.29). Se crer também é graça recebida, o que Deus “previu” foi a fé que ele mesmo decidiu dar. A decisão vem antes.

Por que isso importa

Se Deus escolhesse com base na fé que previu, a diferença final entre quem é salvo e quem se perde estaria em nós: uns teriam tido a fé que os outros não tiveram. Paulo pergunta: “quem é que faz com que você sobressaia? E o que é que você tem que não tenha recebido? E, se o recebeu, por que se gloria, como se não o tivesse recebido?” (1Co 4.7). A eleição soberana tira de nós a última razão de orgulho. “Se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.6).

E é preciso dizer também o que a eleição soberana não é:

  • Não é arbitrariedade. Deus escolhe “conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11), e a sua vontade é sábia e boa, ainda que ele não nos revele todas as razões.
  • Não é negar que Deus conhece o futuro. Ele conhece tudo. A questão não é se Deus sabe de antemão, mas se o que ele sabe é a causa da escolha. A causa é o seu propósito.
  • Não dispensa a fé. “Deus os escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13). Deus escolhe o fim e também os meios. Ninguém é salvo sem crer, e todo aquele que crê é salvo.

Para nós

Ninguém é cristão por herança. Nascer numa família evangélica, ser batizado, ter o nome no rol de membros: Ismael era filho de Abraão, e Esaú era filho de Isaque. A pergunta de Deus não é de quem você é filho, mas se você é filho da promessa.

A mesma verdade consola. Se a salvação dependesse da nossa linhagem ou do nosso desempenho, ela falharia. Depende da palavra de Deus, e a palavra de Deus não falha.

3. Há injustiça em Deus? (vv. 14-18)

14 Que diremos, então? Que Deus é injusto? De modo nenhum! 15 Pois ele diz a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e terei compaixão de quem eu tiver compaixão.” 16 Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia. 17 Porque a Escritura diz a Faraó: “Foi para isto mesmo que eu o levantei, para mostrar em você o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.” 18 Logo, Deus tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer.

Romanos 9.14-18 · Nova Almeida Atualizada

Paulo prevê a objeção

Paulo sabe o que o leitor está pensando: “Então Deus é injusto?”. Como vimos, essa objeção só faz sentido porque Paulo acabou de ensinar uma escolha que não se baseia em nada que a pessoa faça ou venha a fazer. Se Deus tivesse escolhido Jacó porque previu que ele seria melhor, ou que iria crer, ninguém o acusaria de injustiça. A pergunta existe porque a graça é de graça.

A resposta vem seca: “De modo nenhum!”. E Paulo a fundamenta com as palavras de Deus a Moisés: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Êx 33.19). O contexto é marcante. Deus disse isso logo depois do bezerro de ouro, quando o povo inteiro merecia ser destruído. A misericórdia apareceu justamente onde ninguém a merecia.

Justiça e misericórdia

Para entender o argumento, é preciso distinguir duas coisas. Justiça é dar a cada um o que é devido. Misericórdia é dar o que não é devido. Ninguém pode exigir misericórdia; se pudesse, ela seria dívida, e não misericórdia.

Diante de Deus, todos somos culpados (Rm 3.23). Quando Deus condena, é justo, porque a condenação é exatamente o que merecemos. Quando salva, é misericordioso, porque dá o que ninguém merece. Ninguém recebe pior do que merece, e alguns recebem infinitamente melhor. Por isso ninguém recebe injustiça de Deus: ou recebe justiça, ou recebe misericórdia.

E é por isso que Paulo conclui: “isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (v. 16). Isso não quer dizer que a vontade e o esforço humanos não existam. Quer dizer que não são eles que decidem a salvação.

O caso de Faraó

Paulo dá o exemplo oposto: Faraó. Deus o “levantou” para mostrar o seu poder e para que o seu nome fosse anunciado em toda a terra (Êx 9.16). E foi o que aconteceu: a história do êxodo correu o mundo antigo, a ponto de os moradores de Jericó tremerem ao ouvi-la, quarenta anos depois (Js 2.9-11).

E o endurecimento? O relato do Êxodo diz as duas coisas. Faraó endureceu o próprio coração: “Vendo, porém, Faraó que havia alívio, continuou de coração endurecido” (Êx 8.15). E Deus endureceu o coração de Faraó: “Porém o SENHOR endureceu o coração de Faraó” (Êx 9.12). Deus não colocou maldade num coração inocente. Ele confirmou e entregou Faraó àquilo que o coração dele já escolhia, como Paulo descreve em Romanos 1, quando diz três vezes que Deus “os entregou” aos próprios desejos (Rm 1.24, 26, 28).

Para nós

A pergunta certa. Quem pensa que Deus lhe deve a salvação ainda não entendeu a graça. A pergunta difícil não é “por que Deus não salva todos?”, mas “por que Deus salvou alguém como eu?”.

4. Quem é você para discutir com Deus? (vv. 19-29)

19 Mas você vai me dizer: “Por que Deus ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade?” 20 Mas quem é você, caro amigo, para discutir com Deus? Será que o objeto pode perguntar a quem o fez: “Por que você me fez assim?” 21 Será que o oleiro não tem direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra? 22 Que diremos, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a destruição, 23 a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para glória? 24 Estes vasos somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios,

Romanos 9.19-24 · Nova Almeida Atualizada

A segunda objeção

Agora a queixa é outra: se ninguém resiste à vontade de Deus, por que ele ainda culpa alguém? É a objeção do fatalismo: “se tudo está decidido, não sou responsável”.

Paulo não responde com um mecanismo filosófico que explique como a soberania de Deus e a responsabilidade humana se encaixam. Ele responde à atitude de quem pergunta: “quem é você, caro amigo, para discutir com Deus?”. O problema não é a pergunta sincera, como as dos salmos de lamento, de Jó ou de Habacuque. O problema é a criatura que senta Deus no banco dos réus. Quando Deus respondeu a Jó do meio do redemoinho, Jó não recebeu uma explicação completa; recebeu uma visão de quem Deus é, e pôs a mão sobre a boca (Jó 38–40).

O oleiro e o barro

A imagem do oleiro vem dos profetas. Isaías protestou contra quem invertia as coisas: “Será que o oleiro é igual ao barro?” (Is 29.16). E Jeremias desceu à casa do oleiro e ouviu de Deus: “como o barro na mão do oleiro, assim são vocês na minha mão, ó casa de Israel” (Jr 18.6). Vale notar que, em Jeremias, a mesma imagem vem acompanhada de um chamado ao arrependimento (Jr 18.7-11). A soberania do oleiro nunca anulou a responsabilidade do barro.

O oleiro tem direito sobre a massa. Do mesmo barro, faz um vaso para uso nobre e outro para uso comum. Deus é o Criador; nós somos criaturas. Ele não nos deve explicações.

Uma diferença importante

Os versículos 22 e 23 falam de dois tipos de vasos, e a forma como Paulo escreve é cuidadosa. Os vasos de misericórdia são aqueles que Deus “de antemão preparou para glória”: Deus é o agente, do começo ao fim da salvação. Já os vasos de ira estão “preparados para a destruição”, mas Paulo não diz que Deus os preparou. Diz que Deus os “suportou com muita paciência”. A salvação é inteiramente obra de Deus. A perdição é responsabilidade de quem se perde.

E qual é o propósito disso tudo? Mostrar a justiça de Deus contra o pecado, o seu poder e, acima de tudo, “as riquezas da sua glória” nos que recebem misericórdia. Paulo sugere que o caminho que Deus escolheu vai revelar a sua glória de forma mais completa do que qualquer alternativa que pudéssemos imaginar. Pode parecer estranho, e é exatamente aí que entra a humildade: nós não somos Deus.

Chamados dentre judeus e gentios

O versículo 24 traz a conclusão: “Estes vasos somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios”. Esse “chamou” não é só um convite. É o chamado eficaz de Deus, o mesmo elo da corrente de ouro que vimos em Romanos 8.30: os que Deus chama, ele justifica. O convite do evangelho é feito a todos e muitos o recusam; Jesus mesmo disse que “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mt 22.14). Mas, quando Deus chama no sentido de Romanos 8 e 9, ele traz a pessoa a Cristo.

Paulo confirma tudo isso com dois profetas:

25 como também diz em Oseias: “Chamarei de ‘meu povo’ ao que não era meu povo; e de ‘amada’ à que não era amada. 26 E no lugar em que lhes foi dito: ‘Vocês não são o meu povo’, ali mesmo serão chamados ‘filhos do Deus vivo’.” 27 Mas Isaías clama a respeito de Israel: “Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. 28 Porque o Senhor cumprirá a sua palavra sobre a terra, de forma plena e em breve.” 29 Como Isaías já disse: “Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, nós nos teríamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra.”

Romanos 9.25-29 · Nova Almeida Atualizada

Oseias falava de Israel rebelde que Deus prometia restaurar. Paulo vê a promessa ir ainda mais longe: alcança os gentios, que nunca tinham sido “meu povo”. Se você não é judeu e crê em Cristo, você está neste versículo.

Isaías, por sua vez, mostra que Deus nunca prometeu salvar cada israelita. Prometeu um remanescente. E o versículo 29 muda a pergunta de lugar: o espantoso não é que alguns se percam, é que alguém seja salvo. Se dependesse do que merecemos, todos seríamos Sodoma e Gomorra.

Para nós

Leve as suas perguntas a Deus, mas não o leve a julgamento. Há lugar para lágrimas e perguntas na fé cristã. Não há lugar para a arrogância da criatura que exige explicações do Criador.

Nós éramos “não povo”. Quem crê em Cristo foi chamado de “meu povo” sem ter nenhum direito a isso. Isso produz gratidão, e não orgulho. Paulo adverte os cristãos gentios: “não é você que sustenta a raiz, mas é a raiz que sustenta você” (Rm 11.18).

5. Onde Israel tropeçou (vv. 30-33)

30 Que diremos, então? Que os gentios, que não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la, a saber, a justificação que decorre da fé, 31 e que Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei. 32 Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como que por obras. Tropeçaram na pedra de tropeço, 33 como está escrito: “Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de ofensa, e aquele que nela crê não será envergonhado.”

Romanos 9.30-33 · Nova Almeida Atualizada

Um final surpreendente

O capítulo termina com uma inversão. Os gentios, que nem estavam procurando ser justificados diante de Deus, foram justificados pela fé. Israel, que se esforçava para cumprir a Lei, não chegou lá. Por quê? “Porque não a buscou pela fé, mas como que por obras.”

Paulo combina duas profecias de Isaías (Is 28.16; 8.14) para falar de uma pedra posta por Deus em Sião. Para quem crê, ela é fundamento firme: quem nela crê “não será envergonhado”. Para quem confia em si mesmo, a mesma pedra é tropeço. A pedra é Cristo (1Pe 2.6-8). Quem tenta chegar a Deus pelos próprios méritos tropeça justamente naquele que veio salvar pecadores que não têm mérito nenhum.

A responsabilidade humana

Repare na mudança. Depois de falar tanto da escolha de Deus, Paulo explica a perdição de Israel pela escolha de Israel: buscaram a justiça do jeito errado. No capítulo seguinte, ele continua: ignoraram a justiça que vem de Deus e tentaram estabelecer a própria (Rm 10.3).

Soberania e responsabilidade: as duas verdades juntas

Romanos 9 ensina as duas coisas, lado a lado: Deus é inteiramente soberano na salvação, e o ser humano é inteiramente responsável pela sua incredulidade. A Bíblia inteira faz o mesmo, sem constrangimento. José disse aos irmãos que o venderam: “Vocês, na verdade, planejaram o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20). Pedro, no Pentecostes, disse que Jesus foi entregue conforme o plano determinado de Deus e, na mesma frase, culpou os que o mataram por meio de homens maus (At 2.23). E Paulo manda os filipenses desenvolverem a própria salvação “com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar” (Fp 2.12-13).

Não é contradição. É o que alguns chamam de antinomia: duas verdades que a Escritura ensina com clareza, cuja harmonia completa nós não conseguimos enxergar. Martyn Lloyd-Jones, na sua exposição de Romanos 9, resumiu assim: “Somente a eleição explica o salvo, mas a não eleição não explica o perdido. […] O que explica o perdido é sua rejeição do evangelho. […] Somos responsáveis por rejeitar o evangelho, mas não por aceitá-lo.”

Quem é salvo dá toda a glória a Deus. Quem se perde não pode culpar a Deus.

Três perguntas que inquietam

Como posso saber se sou eleito?

Não tentando espiar os decretos eternos de Deus, mas olhando para Cristo e para o que Deus está fazendo em você. A eleição se conhece pelos seus frutos. Paulo sabia que os tessalonicenses eram eleitos por um motivo concreto: “Sabemos, irmãos amados por Deus, que ele os escolheu, porque o nosso evangelho não chegou a vocês somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1Ts 1.4-5). E Pedro manda: “procurem, com empenho cada vez maior, confirmar a vocação e a eleição de vocês” (2Pe 1.10).

Os sinais estão na própria Escritura: confiança em Cristo, amor pelos irmãos (“Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos”, 1Jo 3.14), desejo de santidade, perseverança na fé. A pergunta “sou eleito?” se responde com outra: “eu confio em Cristo?”.

Devo pregar e orar se não sei quem é eleito?

Sim, e com mais esperança ainda. A eleição é justamente a razão de a evangelização dar fruto. Em Corinto, desanimado, Paulo ouviu do Senhor: “fale e não fique calado, […] pois tenho muito povo nesta cidade” (At 18.9-10). E ficou ali um ano e meio pregando. Mais tarde, escreveu: “tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus” (2Tm 2.10).

O Deus que escolhe é o mesmo que estabeleceu os meios: “como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). Não sabemos quem são os eleitos. Por isso pregamos a todos e oramos por todos, como Paulo, que, logo depois de escrever Romanos 9, ora pela salvação de Israel (Rm 10.1).

É possível querer ser salvo, crer e amar a Deus e não ser eleito?

Não. Jesus disse: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37). E também: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44). O desejo sincero de Deus, a fé verdadeira e o amor por Cristo não são sinais de que você ficou de fora. São frutos da graça agindo em você.

Ninguém vai estar perdido por ter desejado Cristo e ter sido recusado. A promessa que fecha Romanos 9 não tem exceções: “aquele que nela crê não será envergonhado”.

O que Romanos 9 muda em nós

  • Humildade. A salvação “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (v. 16). Ninguém no céu vai se gabar de ter sido mais esperto ou mais esforçado que os outros.
  • Segurança. Se a salvação dependesse de nós, poderíamos perdê-la a cada dia. Ela depende do propósito de Deus, e a corrente de ouro de Romanos 8.28-30 não se rompe: quem Deus conheceu de antemão, ele glorificará.
  • Adoração. Uma doutrina que termina em louvor está sendo bem entendida. Paulo terminou assim.
  • Evangelização com lágrimas e esperança. Com lágrimas, como Paulo, porque há gente amada sem Cristo. Com esperança, porque Deus tem muito povo nesta cidade.
  • Nada de orgulho. Se fomos enxertados na árvore pela graça, não há lugar para olhar ninguém de cima (Rm 11.18-20).

A palavra de Deus não falhou

Voltemos à pergunta do começo: a palavra de Deus falhou? Não. Deus sempre teve um povo, formado pela sua escolha livre e graciosa, e cumpre tudo o que prometeu. E o mesmo Deus que escolhe livremente convida livremente. Poucos versículos depois, Paulo escreve: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13).

A soberania de Deus não é uma porta fechada. É a garantia de que a porta que Cristo abriu ninguém consegue fechar. Se você ainda não veio, venha. Se já veio, adore.

33 Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão inexplicáveis são os seus juízos, e quão insondáveis são os seus caminhos! 34 “Pois quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? 35 Ou quem primeiro deu alguma coisa a Deus para que isso lhe seja restituído?” 36 Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre. Amém!

Romanos 11.33-36 · Nova Almeida Atualizada


Este estudo nasceu de um sermão sobre Romanos 9 pregado na Assembleia de Deus de Porto Alegre, congregação Jardim Botânico. Imagem da capa: oleiro em Rasheiyet el-Fukhar, no sul do atual Líbano, gravura de “Picturesque Palestine, Sinai and Egypt” (1881), New York Public Library (domínio público). Pintura no texto: Govert Flinck, Isaque abençoa Jacó (1638), Rijksmuseum (domínio público).

Citações bíblicas deste texto: Nova Almeida Atualizada (NAA) © Sociedade Bíblica do Brasil, 2017. Usada com permissão.

Perguntas

Perguntas sobre o texto

O que Romanos 9 ensina sobre a eleição?

Paulo ensina que a salvação depende da escolha soberana e graciosa de Deus, e não da descendência, das obras ou de algo que Deus tenha previsto em nós. Jacó foi escolhido antes de nascer, “não por obras, mas por aquele que chama” (Romanos 9.11). Por isso ninguém pode se orgulhar diante de Deus.

A eleição se baseia na presciência de Deus, na fé que ele previu?

Romanos 9 indica que não. Deus escolheu Jacó antes que ele nascesse e fizesse o bem ou o mal, e a escolha “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Romanos 9.16). Em Romanos 8.29, “conhecer de antemão” é amar e escolher pessoas, e não apenas prever a fé delas; a própria fé é graça recebida (Filipenses 1.29).

Deus é injusto por ter misericórdia de uns e não de outros?

Paulo responde: “De modo nenhum!” (Romanos 9.14). Quando Deus condena, é justo, porque todos merecemos a condenação; quando salva, é misericordioso, porque dá o que ninguém merece. Ninguém recebe injustiça de Deus: ou recebe justiça, ou recebe misericórdia.

O que significa “Amei Jacó, porém desprezei Esaú”?

A frase vem de Malaquias 1.2-3. Na linguagem bíblica, amar e desprezar indicam escolha e preferência, não um ódio caprichoso. Deus escolheu Jacó, o mais novo, e não Esaú, antes que qualquer um deles tivesse feito o bem ou o mal.

Se Deus escolhe quem será salvo, por que pregar o evangelho?

Porque o Deus que escolhe também ordenou os meios: ninguém crê sem ouvir, e ninguém ouve sem quem pregue (Romanos 10.14). Logo depois de Romanos 9, Paulo ora pela salvação de Israel (10.1) e afirma: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (10.13).

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